O celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelou uma intimidade de meses com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro — do financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro à tentativa de vender o banco a um banco público. Enquanto a direita ataca a Caixa pública, seus principais nomes se acotovelam para socorrer o setor financeiro privado.
Flávio é Vorcaro! Segundo reportagem publicada pelo Estadão em 24 de setembro de 2026, assinada por Aguirre Talento e Luiz Vassallo, a Polícia Federal extraiu do celular de Daniel Vorcaro um período de aproximadamente três meses de conversas com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com menção a seis encontros entre os dois. Não por acaso, o histórico mais antigo estava apagado: o senador usava uma função que apaga automaticamente as mensagens após 90 dias, de modo que só sobreviveu o diálogo entre 20 de agosto e 16 de novembro de 2025 — um dia antes de Vorcaro ser preso pela PF e ter o aparelho apreendido. O contato entre os dois, mostra a extração, havia começado ainda em 16 de dezembro de 2024. Nos quatro dias que antecederam a prisão, Flávio procurou o banqueiro insistentemente: “Fala mermão! Bom dia! Pode atender?”, em 13 de novembro; e, no dia 16, o apelo aflito: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. A assessoria do senador foi procurada e não se manifestou.
No centro dessa relação está dinheiro. Nos diálogos, Flávio cobrava de Vorcaro os pagamentos ao filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — negócio acertado anteriormente, no qual o total repassado foi de cerca de R$ 60 milhões, conforme cobranças reveladas em maio pelo site Intercept Brasil. A ponto de o senador tentar, em 22 de outubro, marcar um jantar do banqueiro com a equipe do longa: “Topa jantar com o Jim Caviezel e o Cyrus em São Paulo no dia 2/Nov (segunda)? Totalmente reservado”, escreveu — referência a Jim Caviezel, ator que interpreta Bolsonaro, e a Cyrus Nowrasteh, diretor da produção.
Uma agenda que corre em paralelo ao cerco da PF
A cronologia dos contatos é reveladora porque acompanha, passo a passo, o afundamento do Banco Master. Segundo o Estadão:
- 20 de agosto de 2025 — primeiro encontro mencionado, que o diálogo indica ter ocorrido (“21 pode ser”, às 17h22; “A caminho”, às 21h47). Quinze dias depois, o Banco Central reprovou o negócio entre o Master e o BRB — o Banco Regional de Brasília — após mais de cinco meses de análise.
- 17 de setembro — Vorcaro agenda novo encontro (“Opa. 14h30?”), confirmado por Flávio (“Hop. Blz”).
- 1º de outubro — Vorcaro procura o senador para marcar mais um encontro, um dia depois de a PF abrir inquérito para investigar crimes na gestão do Master e a tentativa de compra pelo BRB. Não há resposta de Flávio nos registros.
- 22 de outubro — no mesmo dia do convite para o jantar do filme, Vorcaro pergunta: “Vc tá indo dubai?”. O banqueiro, com o Banco Central já sinalizando a liquidação do Master, montava uma ofensiva para vender o banco a investidores dos Emirados Árabes — operação que, como mostrou o próprio Estadão, chegou a envolver o ex-presidente Michel Temer. Flávio se colocou à disposição para acionar o irmão: “Tá precisando de algo lá? Peço pra ele te encontrar”.
O que salta aos olhos é o pano de fundo. O Master não buscou socorro em qualquer lugar: mirou justamente um banco público, o BRB, para tentar se salvar — plano barrado pelo Banco Central e investigado pela Polícia Federal. É o retrato perfeito da lógica que o Comitê denuncia há tempos: o setor financeiro privado prega o Estado mínimo enquanto a conta está boa, mas corre para o colo do público — e dos padrinhos políticos — quando quebra.
E aqui a contradição fica insustentável. São os mesmos setores que repetem, dia após dia, que empresa pública é sinônimo de ineficiência, que defendem entregar a Caixa e o patrimônio do povo ao mercado, que tratam o banco público como estorvo. E são justamente eles que aparecem, nas mensagens extraídas pela PF, na intimidade de um banqueiro preso, cuja instituição quebrou deixando um rombo bilionário — o Supremo Tribunal Federal chegou a determinar o bloqueio de R$ 5,7 bilhões. Enquanto a Caixa Econômica Federal — 100% pública — financia moradia, paga benefícios e sustenta as famílias brasileiras, o Banco Master ergueu uma montanha de títulos que ameaçou poupadores e mirou o dinheiro público para se socorrer. Quando o público é atacado para favorecer o privado, quem paga a conta é sempre o povo.
Diante da revelação, tanto Flávio quanto o irmão tentaram minimizar. Eduardo Bolsonaro afirmou que “nunca” se encontrou com Vorcaro. Flávio, por sua vez, confirmou apenas um encontro presencial — na casa do banqueiro, no fim de 2025, já após a primeira prisão — e disse ter ido lá para “pôr um ponto final nessa história”. Seis encontros mencionados, meses de conversa, cobranças milionárias: é muita coisa para um “ponto final”.
Diante de todo esse cenário, uma coisa fica muito clara: a relação política que aparece no centro da história é a de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro — o banqueiro do Banco Master, preso pela Polícia Federal, ligado a uma tentativa de salvar seu banco em crise e cercado por suspeitas graves no sistema financeiro nacional.
O que salta aos olhos não é apenas a proximidade entre um senador da República e um banqueiro investigado. É o risco de o país ser empurrado para as mãos de um projeto político que combina ataque à Caixa pública, intimidade com banqueiros em apuros, defesa do patrimônio privado quando ele quebra e desprezo pelo papel social do Estado quando ele serve ao povo.
Enquanto tentam desqualificar a Caixa, os mesmos setores aparecem orbitando interesses privados que, na hora da crise, buscam socorro, influência e portas abertas no poder público. A contradição é brutal: atacam o Estado quando ele protege trabalhadores, aposentados e famílias brasileiras, mas recorrem ao Estado quando o problema é salvar negócios privados mal explicados.
Por isso, o caso Flávio-Vorcaro não é apenas uma história de bastidor político. É um alerta sobre o risco que o país corre se essa turma ascender ao posto mais alto da República. Afinal, se já agem assim orbitando o poder, imagine o que seriam capazes de fazer com o comando direto do Estado brasileiro nas mãos. O patrimônio público ficaria vulnerável a grupos ligados ao que há de mais degradado na política e no sistema financeiro nacional.
Defender a Caixa pública, nesse contexto, é defender o Brasil de cair nas mãos de quem trata o Estado como balcão de socorro para poucos — e não como instrumento de proteção do povo.
Quem anda na carona de banqueiro preso não tem autoridade para dizer ao Brasil o que fazer com a Caixa pública.