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Do conselho do banco de Edir Macedo, acusado de fraude, à economia de Flávio Bolsonaro: a trajetória de Daniella Marques

Ela ocupou uma cadeira de conselheira independente no Banco Digimais até dezembro. Em junho, a Polícia Federal bloqueou R$ 670 milhões do banco e apontou balanços manipulados. Procurada, não respondeu.

Em 23 de junho de 2026, mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca na Operação Miragem. O alvo era o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo. A Justiça bloqueou cerca de R$ 670 milhões e quebrou os sigilos bancário e fiscal dos investigados. A PF aponta gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrações financeiras e operação de crédito não autorizada — crimes da Lei 7.492/1986.

Entre fevereiro de 2024 e 8 de dezembro de 2025, uma das seis cadeiras do Conselho de Administração desse banco foi ocupada por Daniella Marques Consentino, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e hoje coordenadora do programa econômico da campanha do senador Flávio Bolsonaro. Os registros são da Junta Comercial de São Paulo, conforme apurou o Metrópoles.

O que um conselheiro assina

Cadeira de conselho não é enfeite de currículo. O Conselho de Administração fiscaliza a diretoria, aprova a política de risco e responde pelas demonstrações financeiras. Conselheiro independente existe para ser o olho de fora, o contrapeso do controlador. Era um dos três assentos independentes do Digimais.

E ela não entrou num banco insuspeito. Quando assumiu, em fevereiro de 2024, o Banco Central já havia constatado infrações no ano anterior e determinado reversões contábeis: o patrimônio do banco inchara de cerca de R$ 71 milhões para R$ 741 milhões por meio de transferências de fundos, e o regulador mandou desfazer.

O que a PF descreve depois é a continuação do mesmo filme. Entre 2023 e 2024, o Digimais emitiu CDBs pagando mais de 110% do CDI para captar dinheiro de investidores de varejo protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Ativos eram reavaliados dentro de fundos para inflar o patrimônio, driblar o Índice de Basileia e ocultar a deterioração da carteira. O banco acumulou cerca de R$ 600 milhões de exposição a carteiras do Banco Master, liquidado em novembro de 2025. Na imprensa financeira, o Digimais já é o “novo Master” — e o Banco Central avalia liquidá-lo também.

Em 8 de dezembro de 2025, o conselho foi simplesmente extinto, meses antes do fim dos mandatos. Três semanas depois, saiu a venda dos fundos. A pergunta é direta: o que aquele conselho viu, o que registrou em ata e por que deixou de existir justamente na véspera?

Não é a primeira vez que ela está perto de um rombo. Daniella Marques presidiu a Caixa entre julho de 2022 e janeiro de 2023, e foi nesse período que o Fundo de Garantia levou a maior mordida de sua história recente. O microcrédito SIM Digital, criado por medida provisória do governo Bolsonaro, aportou R$ 3 bilhões do FGTS num fundo garantidor para cobrir o risco dos bancos. A inadimplência passou de 80%. Como revelou a Folha de S.Paulo, R$ 2,3 bilhões nunca voltaram, e a Caixa ainda perdeu cerca de R$ 460 milhões. Ao mesmo tempo, ocorreu o uso eleitoral da máquina do banco: só entre o primeiro e o segundo turno, R$ 7,6 bilhões saíram em consignado do Auxílio Brasil.

O padrão é o mesmo nas duas histórias, e os empregados e empregadas da Caixa conhecem de cor: o risco é empurrado para um fundo garantidor — o FGTS aqui, o FGC ali — e a conta cai no colo do trabalhador. Foram empregados da Caixa que barraram operações com o Banco Master, e alguns pagaram por isso com retaliação. O mesmo Master que reaparece agora na carteira do banco onde ela era conselheira.

Cadeira de conselho não é linha de currículo. É assinatura embaixo do balanço — e assinatura se cobra.