Dados do Banco Central e do TCU, publicados pelo Estadão, expõem um problema de saúde pública que já consome renda de quem recebe Bolsa Família. O caminho do banco público é a educação financeira — não o balcão da aposta.
Os números que ganharam a capa do Estadão hoje (14) são difíceis de encarar. Com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central e em cálculos do Tribunal de Contas da União (TCU), a reportagem mostra que, só em agosto de 2024, mais de 5 milhões de pessoas que recebem o Bolsa Família transferiram cerca de R$ 3,17 bilhões para casas de apostas. O TCU adotou uma premissa conservadora, de que valores acima de R$ 600 não viriam do benefício, e ainda assim estimou que ao menos R$ 162 milhões saíram diretamente do Bolsa Família naquele único mês. E há um detalhe cruel na engrenagem: cerca de 85% de tudo que entra volta ao apostador como “prêmio” — dinheiro que gira, ilude e evapora.
O retrato de 2025 é ainda mais eloquente. As perdas das famílias brasileiras com bets somaram cerca de R$ 62,5 bilhões — o equivalente a quase 40% de tudo o que o país pagou em Bolsa Família e a mais da metade do Benefício de Prestação Continuada (BPC), repassado a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Sozinhas, as perdas com aposta superaram o que o Estado gastou com seguro-desemprego, abono salarial, Pé-de-Meia e Auxílio Gás. É um rombo social que supera o PIB de quatro estados inteiros: Sergipe, Amapá, Acre e Roraima. Não é entretenimento inofensivo — é renda que sai da mesa, do remédio e do material escolar para alimentar uma indústria que devolve pouco e retém muito.
Diante disso, uma pergunta se impõe: qual deve ser o papel de um banco público nesse cenário? A resposta do Comitê Popular de Luta em Defesa da Caixa é clara e não é de hoje. A Caixa é o banco social do Brasil, nascido para financiar a casa própria, pagar benefícios, levar crédito a quem o mercado ignora e cuidar da poupança popular. Transformar essa instituição — ou suas subsidiárias — em mais um balcão de apostas seria trair a sua própria história. Já defendemos, e voltamos a defender, que o governo agiu certo ao questionar qualquer plano de a Caixa criar uma “bet”. Um banco que existe para proteger o povo não pode lucrar com a ludopatia do povo.
Enquanto a lógica do lucro rápido empurra estatais para dentro do jogo, os dados mostram o tamanho do estrago. A aposta compulsiva já é tratada como questão de saúde pública, e são justamente os mais vulneráveis — quem depende de benefício, quem tem menos margem para errar — os que mais perdem. Colocar o banco público como parte desse mercado não amplia direitos: aprofunda a captura do que é do povo pela lógica do que é do mercado. É exatamente a migração para subsidiárias e para o balcão de negócios que o Comitê denuncia há tempos.
Há um caminho melhor, e ele cabe à Caixa como poucas instituições no país. Em vez de disputar o bolso das famílias na roleta, o banco público pode e deve ser protagonista de educação financeira, de conscientização e de proteção de quem já está endividado. Esse é o uso legítimo da força de um banco de mais de 160 anos: reduzir dano, não multiplicá-lo.
Diante desse cenário, o Comitê entende que é fundamental:
- Blindar a Caixa e suas subsidiárias de qualquer projeto de entrada no mercado de apostas, hoje e nas decisões que virão em 2026;
- Educação financeira como política de banco público — programas ativos da Caixa de conscientização e apoio a apostadores endividados;
- Vigilância permanente contra a lógica que quer transformar o banco social do país em balcão de negócios.
O Comitê Popular de Luta em Defesa da Caixa reafirma: banco público existe para pôr dinheiro no futuro das famílias, não para retirá-lo na aposta. Seguiremos vigilantes.