No dia 20 de abril de 2026, a norte-americana USA Rare Earth, sediada em Oklahoma, anunciou a compra da mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO), por cerca de US$ 2,8 bilhões. Não se trata de uma transação qualquer: a Serra Verde é a única operação em escala fora da Ásia capaz de processar quatro terras raras críticas — neodímio, praseodímio, térbio e disprósio —, os minerais que movem desde carros elétricos e turbinas eólicas até a indústria de defesa. O bem mineral mais estratégico do continente passou ao controle de uma empresa americana sediada em Oklahoma.
O terreno para essa entrega não foi preparado por acaso. Foi o ex-governador de Goiás e candidato à Presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, quem pavimentou o caminho. Em agosto de 2025, sancionou a Lei estadual nº 23.597, criando uma Autoridade Estadual de Minerais Críticos. Em março de 2026, assinou um memorando de entendimento com os Estados Unidos e celebrou publicamente o financiamento de US$ 565 milhões concedido à Serra Verde pela DFC, a agência de fomento do governo americano. Semanas depois de facilitar a operação, o mesmo Caiado subiu o tom e acusou Lula de “vender o Brasil”. O cinismo político chegou a um novo patamar: quem abriu a porteira agora se apresenta como guardião da soberania.
O “moderado” que a Faria Lima quer eleger
Há um esforço deliberado de vender Ronaldo Caiado como um nome “moderado” da direita. É um rótulo conveniente, mas desmentido pelos próprios fatos. Não há moderação alguma em entregar a um país estrangeiro o controle de um patrimônio mineral estratégico enquanto se posa de patriota. Um “moderado”, nesse enquadramento, sempre foi apenas um perfil de direita apresentável o suficiente para tranquilizar o grande capital sem assustar o eleitorado. A pergunta que fica é: moderado em relação a quê, e a favor de quem?
Enquanto Goiás corria para assinar acordos exclusivos com Washington, o governo federal seguia caminho oposto. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, pela voz do ministro Márcio Elias Rosa, foi direto: “Não queremos ser um exportador de matéria-prima.” A venda também não passou sem contestação: a deputada Heloisa Helena entrou com ação civil pública na Justiça Federal no mesmo 20 de abril, e deputados do PSOL — Sâmia Bomfim, Glauber Braga e Fernanda Melchionna — protocolaram representação na Procuradoria-Geral da República pedindo a anulação do negócio e a investigação de Caiado.
Esse episódio não pode ser lido isoladamente. O mesmo raciocínio que trata as terras raras como mercadoria a ser leiloada mira todo o patrimônio construído pelo povo brasileiro — as estatais estratégicas, os bancos públicos, a Caixa Econômica Federal entre eles. Não por acaso, o Comitê já alertava para a ofensiva contra o Pix, criação pública brasileira que os Estados Unidos passaram a atacar para favorecer suas empresas de pagamento, como noticiou a Agência Brasil. É a mesma lógica, em outra frente: o que é do povo vira alvo. E, nesse ponto, a direita fala a uma só voz — seja na versão declarada de Flávio Bolsonaro, seja na embalagem “moderada” de Caiado. Muda o rótulo; não muda o destino da conta.
A defesa do patrimônio público é uma só e não termina nas portas de um banco: alcança o subsolo, a terra, os meios de pagamento e a soberania nacional. Quem entrega as riquezas do país não é moderado — é sócio do projeto que quer transformar o Brasil em quintal. Que as brasileiras e os brasileiros não se deixem enganar pelo rótulo: hoje são as terras raras de Goiás e o Pix; amanhã pode ser a Caixa e o Brasil. Em 2026, cada voto será uma escolha sobre soberania. E soberania não se negocia no balcão da Faria Lima.