Segundo reportagem assinada ontem por Demétrio Vecchioli e publicada no Metrópoles, atletas contratados pela Confederação Brasileira de Atletismo, dentro do patrocínio da Caixa usaram suas redes sociais para promover o senador Flávio Bolsonaro (PL), o ex-presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). As publicações partiram de nomes ligados ao Programa Ídolos do Atletismo Loterias Caixa, em que medalhistas olímpicos atuam como embaixadores e são remunerados para produzir seis posts mensais no Instagram, marcando os perfis da Caixa e das Loterias Caixa. Em uma das publicações, feita ao lado de Flávio, a legenda chamava o senador de “meu futuro presidente da República”.
No centro da denúncia está uma inversão simples de entender: recurso de banco público, canalizado por meio de um contrato de patrocínio esportivo, sendo convertido em vitrine para candidaturas em ano eleitoral. A Caixa é patrocinadora máster da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) há mais de 25 anos — uma parceria construída com o dinheiro do povo brasileiro e com a bilheteria social das loterias, cuja finalidade é fomentar o esporte, e não abastecer o palanque de aliados da extrema direita. O contrato, como registra a reportagem, veda expressamente a manifestação político-partidária. A Constituição, no artigo 37, é ainda mais taxativa: a publicidade dos órgãos públicos não pode servir à promoção pessoal de autoridades. As duas regras foram atropeladas.
O episódio não é um deslize isolado de um ou outro embaixador. Ele expõe um padrão: quando a gestão de uma empresa pública se omite, não agindo com diligência na fiscalização, diante do uso político de seus patrocínios, ela deixa de ser guardiã do interesse público e passa a ser conivente. A permissividade da direção, visto que algumas publicações ficaram por meses no ar, e o silêncio da entidade patrocinada (que só se manifestou quando a crise de reputação para o banco estava instalada) convertem uma relação esportiva em benefício eleitoral privado — e o fazem com o dinheiro de todos os brasileiros e brasileiras.
A contradição que ninguém quer ver
Há uma ironia que a matéria não aprofunda — mas que o Comitê não pode deixar passar. Os programas que sustentam a carreira desses atletas são, em sua grande maioria, conquistas de governos progressistas. Foi nos governos Lula e Dilma que foram criados o Bolsa Atleta e o Bolsa Pódio — instrumentos inéditos de financiamento direto ao esportista brasileiro, que permitiram que centenas de atletas de alto rendimento treinassem sem depender exclusivamente de patrocínio privado. Foi também nesses governos que as estatais brasileiras — Caixa, Petrobras, Correios, Banco do Brasil — ampliaram massivamente seus contratos de patrocínio esportivo, construindo o ecossistema que hoje sustenta o atletismo, a natação, o judô e dezenas de outras modalidades.
No governo Bolsonaro, o caminho foi o oposto. Os patrocínios foram cortados. A Caixa reduziu suas apostas no esporte. O Ministério do Esporte foi extinto. O Bolsa Atleta sofreu contingenciamentos. O próprio atletismo, que hoje tem a Caixa como patrocinadora máster, sobreviveu à gestão Bolsonaro parcialmente — e voltou a respirar com a retomada dos investimentos públicos após 2023, com contrato longevo.
Ou seja: os atletas que hoje usam o patrocínio da Caixa para postar ao lado de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas são, em boa medida, beneficiários diretos de políticas públicas construídas pelos governos que os adversários deles querem desmontar. Eles treinaram com bolsas criadas pela esquerda, competiram com patrocínios ampliados por governos progressistas, e agora convertem esse mesmo patrocínio em palanque para quem cortou tudo isso. É uma contradição política de primeira grandeza — e o povo brasileiro precisa saber.
O teste do espelho
Vale o exercício inverso, que a grande imprensa raramente propõe. O que teria acontecido se um atleta patrocinado pela Caixa, na gestão de Pedro Guimarães- Bolsonaro, tivesse postado “meu futuro presidente da República” ao lado de um candidato da esquerda? A resposta todo mundo conhece: seria escândalo nacional, pedido de apuração de responsabilidade no mesmo dia e manchete em todos os portais. O que está em jogo aqui, portanto, não é o direito de opinião — que o Comitê defende para qualquer cidadão, de qualquer lado. O que está em jogo é o uso de verba pública para promoção eleitoral, algo vedado a todos, sem exceção, justamente para proteger a isonomia do processo democrático.
Esse alerta ganha peso maior porque parte das figuras promovidas está associada, no debate público, a movimentos que apelam à interferência estrangeira contra o próprio país — do lobby externo às ameaças de tarifaço apresentadas como chantagem contra o Brasil. Quando o patrocínio de uma instituição brasileira ajuda a projetar quem flerta com ataques à soberania nacional, a contradição deixa de ser apenas jurídica e passa a ser política.
A Caixa é patrimônio do povo brasileiro, e seu patrocínio ao esporte é conquista social, não moeda de campanha. Defender o caráter público do banco é também impedir que o dinheiro de todos vire propaganda de alguns. O Comitê seguirá vigilante e cobrará que a Caixa faça valer o contrato e a Constituição — porque, quando o público é capturado para servir ao privado, quem paga a conta é sempre o povo.