O nome de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa durante o governo Jair Bolsonaro, circula como possível candidata a vice-presidente na chapa de Flávio. A movimentação é apresentada pelos aliados do clã como sinal de renovação e sensibilidade às pautas femininas. Mas quem acompanhou de perto a trajetória de Daniella Marques à frente do maior banco público do Brasil sabe que o legado que ela deixou não combina com o papel que agora lhe oferecem.
Daniella Marques foi nomeada presidente da Caixa em julho de 2022, num momento politicamente delicado para o governo Bolsonaro: semanas antes, o então presidente Pedro Guimarães havia sido forçado a renunciar após denúncias de assédio moral e sexual feitas por dezenas de funcionárias da instituição. O escândalo — que em 2026 completa quatro anos — expôs o ambiente de violência e misoginia que havia se instalado na cúpula da Caixa sob a gestão bolsonarista.
A chegada de Daniella Marques foi acompanhada do lançamento do programa “Caixa Pra Elas”, apresentado como um marco para o empreendedorismo feminino. O que o governo e a gestão da época não mostraram é que o programa nascia, antes de tudo, como uma estratégia de marketing para limpar a imagem daquela gestão deletéria que ocupava a Caixa — e do próprio governo — após o escândalo de assédio. Usar uma mulher para apagar a mácula do machismo que marcara a gestão anterior era, no mínimo, conveniente.
O rombo do consignado do auxilio emergencial
O legado mais concreto da gestão Guimarães-Daniella Marques na Caixa não está nos programas de marketing institucional. Está nos números que ficaram. A Lei 14.431/22, sancionada por Jair Bolsonaro em agosto de 2022 — a menos de dois meses do primeiro turno —, liberou R$ 7,6 bilhões em crédito consignado para beneficiários do CadÚnico, famílias de baixíssima renda que recebiam o Auxílio Brasil. O desconto das parcelas era feito diretamente no benefício social, comprometendo a renda de quem mal conseguia pagar as contas do mês. A inadimplência gerada por esse programa recaiu, em grande parte, sobre o FGTS — o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, que é, em última instância, o dinheiro do trabalhador brasileiro guardado ao longo de anos de labor. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo (agosto/2023), o FGTS levou um calote de R$ 2 bilhões em decorrência do programa. Uma ação eleitoreira que comprometeu tanto a renda de famílias vulneráveis quanto a saúde do principal fundo de proteção do trabalhador no Brasil.
Esses dois programas — o consignado emergencial e o microcrédito eleitoreiro — só foram encerrados com a chegada da nova gestão indicada pelo governo Lula, que assumiu a presidência da Caixa em 2023. Foi a gestão Lula que teve de limpar o rastro deixado pela administração anterior e recolocar o banco no trilho de sua missão social.
O segundo rombo tem contornos ainda mais graves. O programa SIM Digital, criado por Medida Provisória em março de 2022, liberou R$ 3 bilhões em microcrédito para cidadãos negativados — pessoas com nome sujo, sem capacidade de pagamento comprovada. Resultado: segundo o UOL (agosto/2023), a inadimplência atingiu 88%. A conta foi dividida de forma perversa: R$ 1,8 bilhão do FGTS foi utilizado para cobrir a inadimplência — ou seja, mais uma vez o dinheiro do trabalhador brasileiro pagou a fatura de uma operação eleitoreira. Além disso, a própria Caixa teve de redirecionar R$ 600 milhões para absorver o restante dos prejuízos de uma carteira criada sem critérios adequados de análise de risco e sem estrutura real de acompanhamento dos tomadores.
A narrativa que precisa ser confrontada
Daniella Marques tem concedido entrevistas apresentando-se como gestora comprometida com a inclusão financeira e o empreendedorismo feminino. O Comitê Popular de Luta em Defesa da Caixa entende que qualquer debate sobre o papel futuro dessa executiva no cenário político nacional precisa, antes, responder perguntas que continuam sem resposta:
- Quem responde pelos bilhões em inadimplência gerados pelo programa de microcrédito, cujo custo recaiu sobre o FGTS e sobre o próprio balanço da Caixa?
- Que avaliação é feita sobre os danos causados ao FGTS pelo consignado emergencial?
- O “Caixa Pra Elas” produziu algum resultado concreto além da visibilidade midiática para um governo envolvido em escândalo de assédio?
A especulação sobre Daniella Marques como candidata a vice de Flávio Bolsonaro revela, inicialmente, o grau de dificuldade que o bolsonarismo enfrenta para dialogar com as mulheres brasileiras. Não é com o nome de uma ex-gestora cujos programas endividaram famílias pobres e comprometeram o dinheiro dos trabalhadores que a direita vai conquistar o público feminino.
O Comitê Popular de Lula em Defesa da Caixa reafirma: a Caixa é patrimônio do povo brasileiro e sua história não pode ser reescrita para servir a interesses eleitorais.