CAIXA, um bem público na vida das pessoas.

Quando a política vira aluguel, a democracia vira refém

O Brasil assistiu, em sequência, a dois movimentos que não são apenas “derrota do governo” em uma disputa circunstancial. São sinais de um método: transformar instituições em moeda de troca e, na sequência, produzir a narrativa para justificar o estrago. Primeiro, veio a rejeição de um nome indicado para o Supremo Tribunal Federal que não oferecia pretexto ético nem elemento objetivo que desabonasse sua conduta. Jorge Messias era visto como um quadro com reputação, perfil moderado e capacidade de diálogo. Ainda assim, foi submetido a um constrangimento público que, no limite, rebaixa a autoridade institucional do Estado e empurra o país para uma lógica de “força pelo capricho”. O recado político da direita é: quando um bloco parlamentar derruba alguém “porque pode”, ele está dizendo que instituições não são regra — são ficha de negociação.

No dia seguinte, o segundo ato: um “acordão” que, na prática, mirava derrubar o veto presidencial sobre a questão da dosimetria — abrindo caminho para reduzir penas e anistiar golpistas e criminosos já julgados e condenados pela Suprema Corte — e, no mesmo movimento, sepultar a CPI do Banco Master e até para beneficiar Jair Bolsonaro, com redução de pena.

O que se vê é o Centrão confirmando sua natureza mais conhecida: a de força oportunista, que se move por conveniência, cargo, orçamento e chantagem — e que, quando contrariado, trabalha para paralisar ou deformar as instituições. Maquiavel avisava: o pior tipo de exército é o mercenário — aquele que não luta por causa nenhuma, luta por pagamento. O paralelo é direto: um bloco político que se organiza como “exército de aluguel” não é parceiro de projeto, é parceiro de pedágio. Hoje cobra de um lado, amanhã cobra do outro. Se necessário, trai — porque não responde a princípios, responde a preço.

E por isso a derrota não é de Lula ou de Jorge Messias. É da democracia brasileira, quando o jogo institucional é substituído por chantagem.

Enquanto esse método opera no grito, no veto por vaidade e na fabricação de narrativas, o país também viu, no 1º de maio, sinais de uma agenda que fala com a vida real. Na data, o presidente Lula fez um discurso importante e firme, como chefe de Estado, defendendo a redução da escala 6×1 e anunciando um novo Desenrola, voltado a enfrentar as dívidas e o endividamento da população, para permitir que famílias retomem o fôlego. Isso não resolve tudo — mas estabelece um contraste político que precisa ser dito com clareza: há quem viva de chantagem e blindagem; e há quem esteja disputando o país pelo lado do povo e do trabalho.

Se essa estratégia busca enfraquecer um governo democrático-popular e atacar uma figura histórica como Lula, ela vai sair pela culatra. Movimentos sociais organizados — e também a sociedade em geral, mesmo quando não está organizada formalmente — já deram provas, nos últimos anos, de que não aceitam impunemente estratégias de autoproteção do Centrão e da direita. Quando “pesa a mão”, a reação aparece, nas ruas e nas urnas.

Duas excrescências produzidas no intervalo de um ou dois dias, às vésperas do Dia do Trabalhador, dificilmente passam sem resposta. O país já mostrou mais de uma vez que sabe reagir, fazer contra-ataque democrático e recolocar a direita e o Centrão no seu devido lugar — inclusive em outubro, quando o voto pode mandar muita gente de volta para casa.

Governabilidade por chantagem é sequestro da democracia.