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Venezuela, soberania e o que isso tem a ver com o Brasil e a América Latina

Os últimos acontecimentos envolvendo a Venezuela causaram espanto, perplexidade e um verdadeiro torpor político na América Latina. Em meio a uma escalada de tensões internacionais, sanções, ameaças abertas e ações de pressão externa, o sequestro político do presidente Nicolás Maduro passou a ser tratado com uma naturalidade alarmante por parte de setores da comunidade internacional. Trata-se de um fato gravíssimo, que rompe qualquer limite do direito internacional e sinaliza que, mais uma vez, métodos de força e coerção estão sendo colocados acima da soberania dos povos, especialmente quando o alvo é um país latino-americano.

Esse movimento ocorre em um contexto de ofensiva política associada ao campo liderado pelo presidente Donald Trump, retomando uma lógica histórica segundo a qual os Estados Unidos se arrogam o direito de intervir, direta ou indiretamente, nos destinos da América Latina. A Venezuela, detentora da maior reserva de petróleo do mundo e peça-chave no tabuleiro energético internacional, especialmente no âmbito da OPEP, torna-se novamente o epicentro de uma disputa que ultrapassa qualquer retórica moral e revela interesses econômicos e geopolíticos muito concretos.

O uso reiterado de acusações não comprovadas, como a associação do governo venezuelano ao narcotráfico, integra esse mesmo roteiro. São narrativas mobilizadas para produzir deslegitimação política, justificar sanções unilaterais, provocar instabilidade interna e, agora, chegar ao extremo do sequestro de um chefe de Estado. Quando esse tipo de prática passa a ser tolerado, abre-se um precedente perigosíssimo: o que hoje acontece na Venezuela pode amanhã se repetir em qualquer outro país da região, inclusive no Brasil, caso ouse contrariar interesses externos ou afirmar sua soberania sobre recursos estratégicos.

É justamente por isso que esse tema diz respeito diretamente a nós, brasileiros. Durante muito tempo, nossos irmãos latino-americanos nos enxergaram — não sem razão — como um país que vive de costas para a América Latina, mais voltado para o Norte do que para o próprio continente ao qual pertence. Esse distanciamento é um erro histórico e político. Acreditar que crises como a da Venezuela “não têm nada a ver conosco” é ignorar que a desestabilização de um país latino-americano enfraquece toda a região e ameaça qualquer projeto de integração, desenvolvimento e autonomia coletiva.

O momento exige exatamente o oposto: mais integração, mais conhecimento mútuo, mais solidariedade entre os povos latino-americanos. Precisamos compreender melhor a realidade dos nossos vizinhos, reconhecer que compartilhamos uma história comum de intervenções, dependência e resistência, e agir como o que de fato somos: povos irmãos. Somente a união da América Latina e da América do Sul será capaz de garantir crescimento, estabilidade, soberania e justiça social para o conjunto do continente. Defender o povo venezuelano hoje é defender o Brasil amanhã. É afirmar que nossa região não aceita mais sequestros políticos, tutelas externas ou o desrespeito sistemático ao direito dos seus povos de decidir o próprio destino.