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Com sinceridade: você contrataria Bolsonaro para administrar sua casa e sua família?

Por Beto Nascimento*

Certo dia voltava do trabalho de Uber e o motorista falava das dificuldades do país, da carestia (que, segundo ele, era culpa da guerra), da violência, da dificuldade de criar os filhos, da luta para ser “empreendedor”, etc. Ouvia no rádio um veículo de comunicação claramente bolsonarista, aquele com comentaristas bizarros e que exibiu cenas de vídeo game como se fosses da guerra da Ucrânia. Ele culpava o Supremo e até os astros por tudo, menos Bolsonaro e sua trupe.

Percebendo que ele contava tudo aquilo querendo anuência ou ouvir minha opinião, resolvi mudar de estratégia para situações como aquelas, muito corriqueiras agora em período de eleições. Parti então para elaborar uma metáfora, figura de linguagem que acho mais adequada, num último esforço de buscar um diálogo construtivo com que evita entender a realidade que está na sua cara. E comecei:

Vamos supor que a sua família tivesse problemas financeiros, de emprego, de relacionamento e de saúde, dentre outros, e tivesse a oportunidade de contratar um gestor para ajudar a resolver a situação, decidindo quais ações tomar sobre esses diversos pontos de vista. E o primeiro currículo que você recebe é do Jair Bolsonaro. Você resolve fazer um contrato de experiência, por 30 dias, antes de decidir.

Ele te apresenta um grande economista para ajudar as suas finanças, o senhor Paulo Guedes, que sugere, de cara, que você trabalhe sem parar, renuncie aos seus direitos trabalhistas para conseguir um emprego de qualquer jeito. Ele também decide que você vai vender, pelo preço que der, todos os bens que você e sua esposa lutaram para conquistar e que é bobagem investir na educação para os seus filhos. Bom mesmo é eles aceitarem qualquer emprego. Custa caro para o governo subsidiar a compra da sua casa própria e a faculdade dos seus filhos.

A saúde dos seus filhos também não está bem. É comum terem algum problema de saúde, por situações diversas e, para piorar, tem um vírus aí que é fatal. Você pede ajuda do Bolsonaro, seu gestor que quer ser contratado pelo período de quatro anos (não é fácil demiti-lo por conta do contrato) e defende que é importante viabilizar a vacina para sua família. O seu candidato a gestor despreza e-mail de médicos e estudos que você apresenta e que poderiam acelerar a compra da vacina. No lugar, ele mesmo receita para sua família um remedinho aí que ele ouviu dizer pelo zap que resolve tudo. E para ir tocando a vida, trabalhando, como se nada estivesse ocorrendo. O pior é que você já está sabendo que vários vizinhos estão internados e muitos morrendo. Tenso!

Como se não bastasse, sua filha, muito esforçada, começou a trabalhar num banco e tem um chefe que a assedia, bem como outras pessoas, das mais variadas formas. E você se surpreende ouvindo uma conversa do seu outro filho, inteligente, dedicado e ciente das dificuldades da sua família, que é de trabalhadores, de origem negra. Na conversa com a mãe, assume que é homossexual e que sofreu violência e ataques, por preconceito. E que quase morreu. Você até pensa em falar com o seu gestor, mas pelas opiniões emitidas quando da sua contratação, sabe que será perda de tempo: ele nada fará, certamente criticará a orientação sexual e outros costumes da sua família e dirá que tudo não passa de frescura, afinal num mundo liberal eles podem sim superar tudo pela meritocracia.

A coisa também anda ruim no lado da segurança. Haverá uma reunião do condomínio para discutir como combater a situação. E o Bolsonaro diz que, se contratado, vai propor na reunião armar todo mundo, que assim a coisa vai melhorar rapidinho. O prédio todo terá armas e assim todos estarão protegidos. Se precisar, até negocia com a milicia, “talkey”. Eureka! Está resolvido o problema da violência!

Tem outros problemas sérios rolando, o contrato de experiência está acabando e outros candidatos também te mandaram currículos. Você até tenta falar com Bolsonaro, para uma prestação de contas e para lhe ajudar a resolver os demais problemas, já que ele está no cargo. Mas constata que ele trabalha menos do que quatro horas por dia e vive no WhatsApp propagando mentiras, falando bobagens e tentando impedir a punição dos filhos dele. Tem um passado sombrio, parecem ser bem enrolados, e “racham” o pai de preocupação. Nos finais de semana, seu candidato a gestor sai por aí curtindo a vida adoidado e passeando de moto, com o dinheiro que você paga para ele e propagando a desordem institucional. A vida até parece uma festa.

A corrida de Uber termina e, com ela, minha pergunta antes da despedida:

– E aí, me fale com sinceridade: você contrataria esse gestor para família? E sua mulher e seus filhos, contratariam?

Vida que segue.

 

*Beto Nascimento é o pseudônimo de um bancário. Ele assina com esse nome, pois é a única forma de garantir que não sofra perseguição.